Entre o Drama e a Therapeia, o teatro como lugar de cura
Vera Achatkin*
Sento-me na plateia. Diante de mim um palco nu. O silêncio aponta para a serenidade de um espaço que parece ter estado sempre lá e cujo vazio longe de ser nada é condição de abertura a todos os cenários possíveis. Basta que alguém nele entre e lhe atribua um sentido para ele se transformar.
Penso na genialidade dos antigos gregos. Não porque a eles, historicamente, é atribuída a invenção do teatro, mas porque talvez tenham sido eles os primeiros a compreender, de modo radical, que a existência humana necessita de um lugar onde possa aparecer diante de si mesma. O palco vazio guarda algo da própria condição humana. Antes de qualquer cenário ou personagem, ele é pura possibilidade, para Heidegger, um poder-ser (Seinkönnen). Antes de qualquer narrativa, é abertura. Cada entrada inaugura um mundo; cada gesto funda uma história; cada palavra faz emergir uma realidade que, instantes antes, ainda não existia, nem existirá depois.
O teatro, cuja origem etimológica vem da palavra grega theatron - o lugar de onde se vê – carrega em sua definição já uma próxima pergunta: “se vê o quê?” A resposta parece ser simples: “se vê o drama” (palavra grega que significa “ação”). O teatro nasce, em grande medida, da necessidade de tornar visível aquilo que, como humanos fazemos e sentimos, aquilo que pertence a todos, seja o luto, a perda, a culpa, o amor, o medo da morte e tantos outros que retirados do silêncio da vida privada e colocados diante de todos no palco, nos traz proximidade e o conforto de não sermos os únicos, de podermos reconhecer no outro aquilo que se passa em nós. O teatro, antes de ser espetáculo, é encontro. Antes de ser representação, é um espaço onde nos reunimos para contemplar aquilo que nos constitui e, muitas vezes, aquilo que nos fere.
Isso me faz lembrar do meu querido professor Clóvis Garcia, que dizia sempre que o teatro não é só entretenimento, ele é um lugar de cura e se punha a falar de Epidauro, a cidade grega que abrigava o templo de Asclépio, o deus da cura, reconhecida como berço da medicina ocidental, que em suas práticas terapêuticas combinava tratamentos espirituais, medicina natural e arte. Epidauro, entretanto, é mais conhecida por nós, pela imagem de seu teatro, estampada em quase todos os livros de história. Pois é, fazia parte do tratamento levar os pacientes ao teatro porque acreditavam que eles se purificariam emocionalmente e assim estariam mais perto da cura. Não como se a ida ao teatro eliminasse o sofrimento, mas oferecia a possibilidade de transformar suas dores em experiência compartilhada. O sofrimento isolado tende a aprisionar, mas quando encontra linguagem, forma e testemunho, pode tornar-se parte de uma narrativa humana mais ampla. E talvez toda cura comece exatamente aí: quando aquilo que estava condenado ao silêncio encontra, finalmente, uma cena para existir. A psicanálise freudiana deve muito ao teatro, sobretudo à estrutura da tragédia, mas essa já é outra história.
Sentada na plateia, observando o palco nu, penso na cura, na terapia, outra palavra grega, therapeia, que inicialmente não significava tratamento no sentido médico e psicológico, como hoje a conceituamos. Ela remetia ao cuidado, ao serviço, à atenção dedicada a algo que merece ser preservado.
Entre o drama e a therapeia (a ação e o cuidado), somos, simultaneamente, atores e espectadores de uma história que se desenrola no tempo. E, como no teatro, o que confere sentido à existência não é a permanência dos cenários, mas a intensidade da presença com que habitamos cada momento. Os atores entram e saem. Entretanto, algo resiste: a misteriosa capacidade humana de transformar o vazio em significado, a ausência em memória e o instante efêmero em experiência compartilhada. Talvez seja justamente aí que teatro e cura se encontrem.
Referências:
BRANDÃO, Junito. Teatro grego: tragédia e comédia. Petrópolis: Vozes, 2001.
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 1988.
*Vera Achatkin é professora titular do Centro Universitário Armando Alvares Penteado, doutora em Artes, psicóloga e pesquisadora com atuação interdisciplinar voltada à articulação entre arte, educação e processos subjetivos.